Publicado por: Donald | março 20, 2011

A ‘falta de valores’ da sociedade atual e suas oportunidades

Muito se fala sobre a atual ‘falta de valores’ da sociedade e suas conseqüências. Alguns chegam a construir teorias, outros a protestar por uma sociedade ‘com mais valores’. Questionam-se investidores inescrupulosos, cujos produtos desmoronam economias de uma vida inteira de aposentados ingênuos. Alega-se que a própria vida não tem mais valor e que esta é trocada por um par de Nikes em assaltos à mão armada. Nossas crianças, mais bem informadas e rápidas não tocam mais nos livros, não conseguem manter a atenção focada por 15 min. e, mesmo assim, nos deixam sem palavras com argumentos arrecadados na internet (e na sua velocidade). Seria a decadência social? Precisaríamos retornar à sociedade de valores, cujo cuidado pelo ser humano na mais profunda ética de Kant garantiria condições mínimas de uma vida digna a todos os cidadãos? Seria isso possível? Ou a mudança é um fato, com o qual nós e nossas organizações devem aprender a lidar?

Antes de discutirmos ‘valores’ é importante analisarmos melhor o que este termo significa. Neste contexto, valores indicam normas sociais informais e amplamente aceitas que orientam o comportamento individual. E por ‘perda de valores’ geralmente nos referimos à falta de previsibilidade do comportamento individual somada a comportamentos que venham a agredir o ser de alguma forma, hoje ou amanhã. Exemplos são a falta de respeito, a agressão por picuinhas, a priorização econômica em relação ao ser humano, etc.

Na sociedade pré-moderna valores tinham uma função bem determinada. A família, como núcleo social, era planejada e montada, através de casamentos arranjados, em um contexto repleto de ‘valores’. A função da família era, ao mesmo tempo, legal, econômica, política, educacional, etc. As relações familiares compunham as possibilidades políticas de cada membro, através da influência. Aspectos legais eram tratados de formas distintas entre famílias e a economia era profundamente direcionada pelos sobrenomes. Neste contexto, os ‘valores’, as normas sociais, como por exemplo o casamento arranjado entre membros da mesma classe, eram aspectos indispensáveis para que a sociedade funcionasse corretamente.

Com a sociedade moderna, estas funções foram extraídas do núcleo familiar. A economia criou sua própria dinâmica e qualquer um, homem ou mulher, pode participar do sistema econômico uma vez que estejam dispostos a obedecer suas leis. A diferenciação de partidos políticos e do sistema democrático extraiu (talvez não seja o caso do Brasil ainda) a função política da família e, da mesma forma que a economia, todos temos a possibilidade de participar no sistema político sob suas próprias regras. A educação hoje, em grande parte, é assumida por instituições escolares e a justiça assume o papel de julgar o que é legal ou ilegal. E assim, gradativamente, sistemas diferentes emergiram, esvaziando as funções do núcleo familiar. E isso garantiu o que hoje conhecemos por ‘casamento por amor’. Esse é o lado bom.

Com isso, a sociedade moderna não necessita mais de ‘valores’ para seu adequado funcionamento. Cada função agora é absorvida por um sistema distinto e nós experenciamos aquilo que chamamos de ‘falta de valores’. Esta experiência está sobretudo ligada ao esvaziamento do indivíduo como unidade indivisível. Sim, porque no trabalho operamos economicamente, perante à lei, legalmente, na política, politicamente. E a falta de hierarquia entre estes sistemas nos coloca em cheque, pois correntemente nos defrontamos com decisões econômicas que contradizem nossas convicções políticas ou religiosas. Sentimo-nos cindidos e nos obrigamos a justificar tais atos. Sentimo-nos ‘sem valores’, ‘sem ética’, ‘sem moral’, pois não existem mais normas únicas capazes de orientar nosso comportamento nas diferentes situações cotidianas. E consultórios psicológicos e psiquiátricos se enchem.

É importante, todavia, observar que essa evolução não é reversível. Na evolução social, a diferenciação funcional dos sistemas provou-se uma solução melhor do que o uso dos antigos ‘valores’, completamente ambíguos. Todos concordamos que o dinheiro facilitou a vida, quando comparamos a economia ao escambo. Todos concordamos que a democracia é melhor que a política de influência familiar. Todos concordamos que a liberdade religiosa é melhor que a igreja como instituição política única. E isso significa que o tão falado ‘retorno de valores’ não tem sentido. Mas isso também significa que, sim, é provável que, enquanto a justiça não interfira traçando e executando corretamente a diferença entre legal e ilegal, veremos mais assassinatos por relógios e sapatos de marca. Pois a economia exige dinheiro e a família, esvaziada, não é capaz de suprir nem as necessidades econômicas nem justificar a ilegalidade de tais ações. Isso é trabalho da economia e da justiça, respectivamente.

Essa nova estrutura social, quando acompanhada das evoluções tecnológicas sobretudo possibilitadas pela internet, apresenta um desafio para organizações. Suas ações acabam facilmente escancaradas pela transparência virtual (vide Wikileaks). E nessa sociedade orientada por funções, organizações, como indivíduos, são frequentemente deparadas com situações paradoxais, nas quais decisões econômicas contradizem decisões ambientais ou políticas. E para sobreviverem, organizações são obrigadas a sucumbir ao paradoxo, sem a chance de se orientar por ‘valores sociais perdidos’. Não podem nem mais justificar seus atos com estes valores. Ou será que conseguiríamos justificar usinas atômicas no Japão de alguma forma?

Sem podermos alegar uma ‘mudança de valores’ mas sim uma dissolução da função, da necessidade destes, julgo que temos sim que trabalhar para que cada sistema, político, econômico, legal etc. cumpra sua função de forma transparente e clara. Além disso, creio que essa evolução também oferece oportunidades sem precedentes, vide o sucesso de cruzeiros marítimos para homossexuais. Com certeza, aquelas organizações que internalizarem as mudanças sociais e tecnológicas hoje terão um diferencial amanhã. Não se trata de retornar aos valores, mas de lidar com as diversas facetas da sociedade atual de forma transparente, reconhecendo nesta mudança novos mercados!

About these ads

Responses

  1. O comentário de joycynha_kauee@hotmail.com feito em 21.09.2012, às 17:41, foi retirado pelo autor do blog pelo uso de linguagem inadequada.

  2. Parabéns!
    Excelente texto!
    Muito claro e abordando de forma concisa o tema
    abraço

  3. sou assistente social e trabalho com dependentes quimicos.
    seu tema aborda mudanças sociais,que presenciamos no cotidiano de trabalho e nos sentimos despreparados para aborda-los com mais segurança.
    gostaria que me indicasse alguma bibliografia que ajude a ampliar meus conhecimentos nessa sociedade pós moderna.
    obrigada

    • Cara Maria,

      obrigado pelo comentário. De fato, as mudanças da sociedade ainda não foram digeridas por nós e isso nos gera grande insegurança para atuar em nosso dia a dia. Sua área de trabalho é bastante específica e sinto não poder te recomendar algo direcionado. As ideias que uso derivam sobretudo da sociologia de Niklas Luhmann. Contudo, seus textos são bastante técnicos e, na maioria dos casos, estão apenas no alemão. Além disso, uma referência que trata de algumas mudanças na sociedade de uma forma bastante ilustrativa e com fundamento, é o livro ‘O Ponto de Mutação’ de Fritjof Capra. Esse livro faz uma revisão dos fundamentos filosóficos da sociedade moderna e dos problemas que surgem com isso. Talvez possa ser um ponto de partida.

      Um abraço, Donald.


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 29 outros seguidores